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Jouer Entrevista #15 | Léa Gejer

Léa Gejer, idealizadora e colaboradora da Ideia Circular – iniciativa dedicada à discussão, educação e divulgação da economia circular e do Cradle to Cradle, muitas vezes citado aqui no blog – é a nossa convidada do mês para o Jouer Entrevista.

Arquiteta e Urbanista graduada na Unicamp, mestre em Gestão Ambiental Urbana pela Wageningen University, departamento de Tecnologia Ambiental, Holanda, onde se especializou na metodologia Cradle to Cradle e economia circular. É apaixonada pela criação de produtos e espaços saudáveis, e vem aplicando em seus trabalhos ferramentas de pesquisa e design que promovam o impacto benéfico para os usuários e meio ambiente. É fundadora da Flock, empresa de design circular e gestão ambiental aplicados à arquitetura, produtos industriais e cidades, além de representar no Brasil o EPEA GmbH (Environmental Protection Encouragement Agency).

Confira a nossa conversa completa abaixo:

JC – Se tratando dos resíduos, hoje em dia, sabemos que há um trabalho mais voltado para a gestão dos mesmos do que para a Economia Circular em si, o que nos mantém no sistema linear. Você acredita em quais medidas viáveis para começarmos a mudar esse cenário?

 

LG – Eu acredito que estamos num momento de transição da economia linear, que é baseada no processo de extração – consumo – descarte, para a circular, na qual produtos são pensados para que materiais possam circular de forma saudável, dentro de seus ciclos, indefinidamente. Nesse sistema circular, desenhamos produtos e processos de modo a eliminar o conceito de lixo.

 

Nessa transição do linear para o circular, gerir nossos resíduos é muito importante porque ainda existem e devemos fazer da melhor forma possível. Mas ao mesmo tempo precisamos olhar para a frente e entender o futuro que queremos, aonde queremos chegar. Quanto melhor desenharmos os nossos produtos, menos resíduos teremos que manejar.

 

Um primeiro passo que temos que tomar é o de traçarmos as nossas intenções. O que queremos para os nossos produtos e processos?  E depois, temos que saber aonde estamos. Devemos nos perguntar: Do que e como são feitos os nossos produtos? Quais as substâncias utilizadas? Elas são positivas e saudáveis? São feitas para estar em contato com o ser humano e para a biosfera? E o que acontece depois com cada parte desse produto? E depois…?

 

Depois que tivermos bem claro cada objetivo, e sabermos aonde estamos, podemos traçar as estratégias e o passo a passo de como alcançá-los. E daí será possível iniciarmos um processo de otimização, que deve ocorrer aos poucos, em um processo em rede, em que diferentes fornecedores e produtores possam se apoiar para uma melhoria contínua.

 

 

JC – Como você enxerga o progresso da Economia Circular no Brasil? 

 

LG – A economia circular e o design Cradle to Cradle têm uma característica interessante, que é que às vezes parece ser a coisa mais natural a se fazer. Por exemplo, muitas vezes quando falamos da distinção entre os dois ciclos – o biológico e o técnico – as pessoas acham que não estamos falando sobre nenhuma novidade…, mas isso não é verdade ainda na maioria dos casos, a indústria de massa ainda vai muito pouco nesta direção, seja porque querem manter a inércia do que tem sido feito ou pelo custo de trabalhar uma inovação. Por outro lado, estão surgindo diversas iniciativas que seguem esse pensamento e desenvolvem trabalhos que aplicam muitos critérios do design circular, às vezes mesmo sem saber que o que fazem é economia circular ou C2C, mas empregam justamente por ser um pensamento natural, intrínseco.

 

Apesar dessas iniciativas que estão a frente da EC no Brasil, se olharmos para um espectro mais amplo, vemos que, de forma geral, ainda estamos em um estágio bastante inicial quando nos comparamos com outros países. Ainda estamos entendendo e divulgando o conceito, e ainda há muito equívoco com o uso do termo “economia circular”. Estamos amadurecendo como esse sistema pode se amoldar dentro das nossas condições locais, alinhando conceitos e unindo essas iniciativas que estão dissipadas.

 

Ainda é muito raro a gente ver uma grande empresa brasileira decidir olhar para dentro e reavaliar o seu processo produtivo, de ser pioneiro no desenvolvimento de um produto circular do berço ao berço. Mas acredito que os empresários estão aos poucos se abrindo para esse olhar, e que, quem não fizer logo, vai ficar cada vez mais para trás…

 

A política pública também é crucial para acelerarmos essa transição e nisso estamos engatinhando. Precisamos de mais políticas de incentivo para a economia circular, de forma a fortalecer e ampliar essa rede que está se formando.

 

JC – Qual setor você considera que tem obtido maiores avanços no processo de implantação da circularidade? 

 

LG – Eu vejo 3 setores de indústria que estão avançando mais na discussão: a cadeia da construção civil, a têxtil e a de plásticos, mas todas ainda estão em um estágio inicial. A cadeia do plástico talvez esteja um pouco mais a frente porque o assunto está muito alarmado e as grandes indústrias estão buscando e investindo em inovações. Os jovens consumidores não querem mais ser poluidores…, mas acredito que o mesmo vai acontecer em breve com as outras cadeias produtivas, porque o sistema linear é o mesmo, e é insustentável.

 

JC – Falando especificamente da indústria têxtil, quais saídas você acha mais interessante para que acelere o ritmo circular?

 

LG – Temos que saber e entender do que e como os nossos produtos são feitos. E aqui eu falo de tudo: as fibras, as tintas, os fios, os aviamentos, etc. É sempre importante perguntar: de onde isso vem? E também: para onde vai?

 

Com essas respostas podemos passar por um processo de melhoria contínua, eliminamos aos poucos aquilo que não é bom e saudável e otimizamos aquilo que é positivo, de forma intencional. É importante criarmos um banco com esses materiais positivos – aqueles materiais que foram desenvolvidos desde o início para a economia circular, para retornar aos seus ciclos de forma saudável.

 

Existem iniciativas internacionais como a Fashion Positive (https://www.fashionpositive.org/) em que grandes marcas e seus fornecedores estão definido a moda circular a partir de materiais positivos. Eles estão unindo esforços para conduzir a indústria da moda para o uso de materiais seguros e saudáveis. E estão criando esse banco de materiais e se conectando para inovar no desenvolvimento de novos materiais que a indústria precisa, mas que ainda não existem.

 

No Brasil, isso pode ser muito interessante. A gente tem um cenário único que é o de termos praticamente toda a cadeia produtiva têxtil e o consumo das peças dentro do mesmo país. Isso é diferente de como ocorre por exemplo em países europeus ou norte americanos, que importam peças e materiais de diversas regiões para consumir lá. Isso facilita para a gente, porque os diferentes fornecedores estão sob a regência das mesmas normas, e estão próximos uns dos outros, podem conversar, se complementar e discutir questões para a inovação. Também fica mais fácil para o material retornar do consumidor final de volta para a indústria. E temos que fazer proveito disso.

 

 

JC – Sabemos que um futuro Circular só será efetivamente possível com a colaboração de todos os setores em conjunto. A curto e longo prazo, quais suas impressões com relação a essa coletividade?

 

LG – No curto prazo, temos essas iniciativas dispersas, e as definições e linguagem ainda não estão alinhadas. Temos que definir conjuntamente o que é um edifício circular, uma moda circular, etc., para o Brasil. E daí estabelecemos intenções e critérios. Com esses critérios podemos reinventar materiais inovadores, positivos, saudáveis, desenhados intencionalmente para a economia circular.

 

Esses produtores que seguem os mesmos critérios vão se tornar fornecedores uns dos outros, os quais irão se apoiar e se fortalecer. E daí conseguimos sair dessa primeira fase visionária e de intenções para o desenvolvimento de um novo modelo.

 

Se estamos sozinhos, podemos reduzir a produção de lixo, mas se estamos unidos, podemos alcançar muito mais e transformar o conceito de lixo em algo antigo, obsoleto. E é aí que queremos chegar.

 

 

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